Informe Chapada

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Digressões de um filho

15.10.2015

No último dia 06, Livramento de Nossa Senhora celebrou o 94 ª aniversário de emancipação política. Mas, para além das festividades, essa data traz consigo uma carga significativa de digressões sobre o que se passou nessas nove décadas de emancipação municipal.

Antes de qualquer desdobramento de idéias, gostaria de deixar claro que essa é uma impressão pessoal de um livramentense que passou a enxergar a cidade numa perspectiva exterior aos últimos anos de convivência no município. Não residindo na cidade desde 2011, me permiti observar como  as coisas - e, também, as pessoas - se configuram por lá.

Situada a sudoeste da capital baiana, Livramento é envolta em um quadro de vegetação que chama atenção pela sua exuberância, típica das proximidades da região sul da Chapada Diamantina. A cachoeira Véu de Noiva, de onde se tem uma visão panorâmica do território municipal, é, certamente, um dos pontos turísticos mais incríveis da cidade. Mas não é o único. A catedral da cidade, construída no fim do século XIX e reformada nos séculos posteriores, é um imponente símbolo do tradicionalismo religioso e pode ser considerada uma das maiores obras arquitetônicas da localidade.

Numa visão geral, Livramento se sustenta a partir do cultivo de manga, maracujá e banana. Em consequência disso, criou-se uma cadeia de dependência no mercado local. Boa parte das atividades comerciais da cidade ficou dependente do agronegócio de exportação de frutas. Apesar de haver uma injeção de um valor significativo de capital vindo do cultivo dos grandes e médios produtores rurais, não há investimentos em projetos de beneficiamento das frutas cultivadas, sendo, assim, um mercado totalmente voltado a exportação.

 

Já falando de uma perspectiva sociocultural, a cidade é historicamente fechada nela mesma. As festas populares, geralmente ligadas à religiosidade, sofreram com as intempéries trazidas pela modernidade e, de certa forma, romperam a áurea do tradicionalismo secular.

Fundada nos arreios do provincianismo, Livramento não fugiu do que parece ser um destino natural para muitas cidades brasileiras: o coronelismo moderno. Não entrando em questões de partidarismo, a trajetória das pequenas e médias cidades propicia uma política que sobreviveu ao longo da história do país. Basicamente, o coronelismo configura uma organização em que as pessoas com maior influência (geralmente as com mais aquisições financeiras) ditam as regras de convivência, os hábitos, os valores e a maneira como se deve conduzir a estrutura social local. E é assim que se cria uma espécie de dominação política e social entre os habitantes de um mesmo lugar.

Criada essa bolha, se torna muito difícil fazê-la estourar. Por isso que muitos dos nossos conterrâneos buscam se projetar fora da cidade. E resta aos que ficam dançar em conformidade com a coreografia predefinida.

Mas Livramento é uma cidade gentil que sempre está de braços abertos para seus filhos. Basta saber abraçá-la. 

 

Lucas Barbosa é estudante de jornalismo na Uesb-Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

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